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Os talibãs fecharam as universidades. E se construíssemos uma sem fronteiras?

“Quando cheguei a Portugal, senti que finalmente voltava a viver após quatro longos anos em suspenso.”

Quem o diz é uma jovem afegã. O que lhe devolveu essa sensação de estar viva não foi nada extraordinário. Foi uma sala de aula. Depois de quatro anos em clausura forçada, podia voltar a sentar-se numa turma, entre colegas, aprender, fazer trabalhos de casa e pertencer a uma comunidade onde todos tinham o direito de aprender. “No Afeganistão, a educação era a minha forma de sobreviver”, escreveu. Em Portugal, tornou-se “o meu sonho e a minha esperança”.

A sua história fala de liberdade recuperada. Mas é também o espelho invertido do que aconteceu a milhões de mulheres e raparigas que ficaram para trás.

A 15 de agosto passam cinco anos desde que os talibãs tomaram Cabul. Cinco anos em  que aproximadamente metade da população afegã foi progressivamente empurrada para  fora da vida pública. As mulheres não desapareceram. Estão lá. Pensam, trabalham  quando podem, cuidam, ensinam, aprendem, resistem, sonham. Mas vivem num paradoxo  terrível: constituem metade da sociedade e estão a tornar-se cada vez mais invisíveis. 

O Afeganistão é hoje o único país do mundo em que raparigas e mulheres estão proibidas  de frequentar o ensino secundário e superior. Segundo os dados mais recentes da  UNESCO e da UNICEF, 2,4 milhões de adolescentes estão privadas do ensino  secundário. E a exclusão começa ainda antes: 93% das crianças que chegam ao fim do  ensino primário não atingem a proficiência básica em leitura. 

Não estamos apenas perante uma crise educativa. Estamos perante a tentativa sistemática  de retirar a cerca de metade da população os instrumentos que lhe permitem afirmar-se e ganhar autonomia. Porque a educação é muito mais do que uma sala de aula ou um  diploma. Permite-nos compreender o mundo e encontrar palavras para o questionar,  conhecer os nossos direitos e aprender a defendê-los. Abre caminho à independência  económica, à participação na sociedade e à possibilidade de escolher o nosso próprio  futuro. Sem educação, a liberdade torna-se uma concha vazia.  

Mas há outra história que precisamos contar. As mulheres e raparigas afegãs não deixaram  de querer aprender. Muitas continuam a fazê-lo em silêncio, clandestinamente, usando  todos os meios disponíveis: a internet, redes informais, comunidades de aprendizagem e  todas as brechas por onde o conhecimento ainda consegue passar. Aprender tornou-se  também uma forma de resistência. 

A comunidade internacional deve continuar a exigir inequivocamente a reabertura das  escolas e universidades para as mulheres. O direito à educação é um direito humano e não  pode ser negociado. Mas, cinco anos depois, condenar já não chega. Não podemos esperar  que as portas das universidades afegãs voltem a abrir para começar a agir. Se uma porta  foi fechada, temos de encontrar formas de abrir outras. 

E não partimos do zero. Pelo mundo fora, há inúmeras iniciativas que procuram manter a  educação acessível às raparigas afegãs: ensino online e à distância, bolsas e programas de  mobilidade, formação profissional, recursos digitais, redes universitárias, mentoria e 

reconhecimento de qualificações. Há também inúmeráveis projetos educativos  conduzidos pelas próprias mulheres afegãs. Nenhuma destas soluções substitui o direito  de uma rapariga entrar livremente numa escola ou numa universidade no seu próprio país.  Mas cada uma pode impedir que mais uma vida fique suspensa. 

Em Portugal, através do programa Farol de Esperança, jovens afegãs puderam  reconstruir os seus percursos académicos interrompidos. Algumas são hoje diplomadas  pelas nossas instituições de ensino superior, em áreas tão diferentes como Ciência Política  e Relações Internacionais, Psicologia, Urbanismo e Engenharia, e já iniciaram carreiras  profissionais. Outras completaram apenas um semestre de aprendizagem da língua  portuguesa, enquanto as restantes concluirão a licenciatura no próximo ano letivo. É de  salientar o caso de duas estudantes que conquistaram o primeiro lugar numa competição  de empreendedorismo, com um projeto tecnológico para monitorizar o bem-estar de  bebés. 

A experiência mostra-nos também que o apoio de uma bolsa de estudos é indispensável,  mas, por si só, não basta: é preciso assegurar preparação linguística, mentoria, integração  e apoio na transição da universidade para o emprego. 

No entanto, este tipo de resposta, embora indispensável, tem uma limitação evidente: a  escala. Uma bolsa de estudos pode mudar uma vida. Por isso, precisamos de perguntar  como é que uma mulher a quem foi devolvido o direito de estudar pode ajudar cem outras  a recuperá-lo. É preciso chegar também às que não podem deixar o Afeganistão. 

O desafio é, pois, ampliar o alcance destas respostas, mobilizando meios já existentes e  um dos recursos mais valiosos que construímos: as próprias estudantes e diplomadas.  Quem teve a oportunidade de estudar pode tornar-se professora, mentora e referência para  milhares de mulheres que continuam excluídas do ensino superior. 

A Nexus 3.0 tem, desde já, dois novos projetos na calha. O primeiro é o Lighthouse  Healing Hub, uma plataforma online de saúde mental concebida para dispensar apoio  psicológico confidencial e culturalmente adequado. Incluirá consultas na língua das  utentes, com profissionais afegãs formadas em Portugal, além de coaching e workshops.  Porque não basta sobreviver nem conseguir estudar. Anos de isolamento, medo e perda  de autonomia deixam marcas profundas. Educação, saúde mental e capacidade de  imaginar um futuro fazem parte da mesma reconstrução. O segundo projeto é ainda mais  ambicioso: e se construíssemos uma universidade sem fronteiras? Seria uma versão  digital inspirada no modelo da Universidade no Exílio, que, nos anos 30, acolheu  académicos e intelectuais judeus e europeus perseguidos pelos nazis. As nossas  instituições de ensino superior poderiam formar uma rede comum, aberta a outras  congéneres estrangeiras, para a qual cada uma contribuiria com disciplinas, docentes,  tutoria, bibliotecas, recursos digitais, orientação científica ou certificação. Empresas,  fundações e outros parceiros assegurariam tecnologia, mentoria, estágios, bolsas,  conectividade e dimensão internacional. E, sobretudo, as primeiras mulheres que  ajudámos a formar poderiam ensinar as próximas. Uma estudante torna-se diplomada.  Uma diplomada torna-se professora. E assim se alavanca uma cadeia multiplicadora de  oportunidades.

Não estaríamos a substituir as universidades afegãs, nem a aceitar como inevitável a  proibição imposta pelos talibãs. Estaríamos precisamente a recusá-la. Estaríamos a  afirmar que nenhum regime deve ter o poder de decidir onde termina o conhecimento. 

A Nexus 3.0 tem condições para lançar esta experiência em Portugal: agrega já um  conjunto de instituições de ensino superior, organizações da sociedade civil, empresas e  doadores empenhados em criar oportunidades educativas para estudantes oriundos destas  situações de crise humanitária. As colaborações internacionais também se têm  densificado: por exemplo, a Nexus 3.0 integrou um programa ERASMUS de advocacia  para promover o acesso dos refugiados ao ensino superior e, tal como a Brave Future,  outra organização portuguesa, associou-se este ano à Alliance for Education of Women in  Afghanistan, que procura reforçar os percursos educativos e a cooperação em benefício  das mulheres e raparigas afegãs. 

Uma Universidade no Exílio on-line poderia começar pelas mulheres afegãs, mas não  teria de terminar nelas. No futuro, o mesmo modelo poderia chegar a estudantes de outras  nacionalidades a quem a guerra, a perseguição, a deslocação forçada ou a discriminação  retiraram o direito de aprender. Tratar-se-ia de uma universidade sem fronteiras para  aqueles a quem as fronteiras retiraram o acesso ao conhecimento. 

Cinco anos depois, a jovem que encontrou em Portugal uma sala de aula diz que sonha  com um mundo em que todos tenham “a oportunidade de viver como devem”. Não  podemos devolver-lhe — nem aos milhões de mulheres que ficaram no Afeganistão — estes cinco anos. Podemos, porém, recusar-nos a perder os próximos cinco. 

Os talibãs fecharam as universidades às mulheres. Está na altura de abrirmos uma que  eles não consigam fechar. 

Ana Nunes, Vice-Presidente da Nexus 3.0

*texto elaborado com a assistência da IA